Com montagem de Pedro Bronz, “A Farra do Circo” chega aos cinemas

26.MAI.14 | Apresentando imagens inéditas registradas na época em VHS pelo jovem cineasta Roberto Berliner e fotos de arquivos pessoais, A Farra do Circo é uma viagem de volta a uma época de efervescência da cena cultural do Rio de Janeiro, que teve repercussão no Brasil todo. O filme tem produção da TvZERO. Nosso associado Pedro Bronz, que assina a co-direção com Roberto Berliner e também a montagem do documentário, nos contou sobre o processo de edição do filme: “As imagens que o Roberto Berliner produziu no início do Circo Voador eram maravilhosas, e me deu um prazer muito grande sentar e ficar olhando esse material, do jeito que estava, longo, sujo, tosco, cheio de insights, highlights e tudo mais. Era muito divertido dar play e assistir. Então a idéia foi essa, fazer com que o espectador sentisse o mesmo prazer que nós sentimos ao ver e rever (no caso do Roberto) o material. E para isso era preciso não editar. Ou pelo menos dar esse espírito à montagem, a não-montagem, uma sensação de material bruto. Um dos princípios que nortearam a edição foi então: não estragar. A gente queria também que as pessoas tivessem uma experiência sensorial de um show do Circo Voador daquela época (1982/3), com seus tempos mortos, os erros, os acertos, os improvisos, os hits. E nesse sentido os nortes se encontravam, pois para sentir tudo isso era preciso que o material falasse por si só, e não nós gerarmos um pensamento a partir do material. Planos longos, dar tempo de ver o cara com um cigarrinho lá atrás, deixar o couro comer. Chegamos a fazer entrevistas nos dias atuais, mas esse material gritou muito “Me tirem daqui pelo amor de Deus!”. Nós ouvimos e guardamos ele para quem sabe outra ocasião…” O longa entra em cartaz no Rio e em São Paulo nesta sexta, 29 de maio. Site official  http://www.tvzero.com/afarradocirco

Seção Match Frame - Natara Ney

20.MAI.14 | Natara Ney é a convidada deste mês para a Seção Match Frame. A montadora pernambucana assina a montagem dos premiados longas-metragens "A Máquina", "O Mistério do Samba" e "O Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas". natara_-08   Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente. Atualmente estou editando o documentário Divinas Divas. Direção Leandra Leal. Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê. Acho que o primeiro é sempre o mais arrebatador, eu estava no Rio há muito tempo e só tinha feito assistência de montagem, quando o Paulo Caldas me chamou para montar o Rap do Pequeno Príncipe. Paulo é um diretor muito presente, então foi um processo de aprendizado e de parceria muito bom. As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e realizar a montagem? Eu edito muito no papel, gosto de escrever as sequências e olhas para elas escritas, pensar qual a função delas dentro do filme. Penso muito na edição quando estou fora da sala de montagem. Então a tecnologia é apenas uma ferramenta, que sempre vai mudar, mas o meu processo é dentro do meu juízo. Indique um filme cuja edição você admire e explique o porquê. O primeiro que vem a minha mente é "O Homem que Engarrafava Nuvens" Tem essa vitalidade nos cortes e ao mesmo tempo uma montagem atemporal, uma costura invisível. Fale um pouco sobre o início de sua carreira. O que te levou a ser montadora? Me formei em jornalismo, e logo no início da faculdade consegui um estágio em uma emissora local. Depois comecei a editar alguns programas para tv, dirigidos por Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Algum tempo depois conheci o Mair e vim para o Rio ser assistente dele.   Por que você escolheu a montagem como profissão? Nunca imaginei que uma pessoa pudesse viver de fazer cinema, a pessoa no caso eu mesma. Fazer cinema era algo muito distante de tudo o que eu vivia, achava algo etéreo, fantasioso. O que havia em mim desde sempre era o desejo de contar histórias, de narrar fatos.  Veio então o Jornalismo como uma ferramenta para isto, algo sólido e concreto. Depois o teatro, como jogo lúdico, entrou na minha vida. Aprendi que construir uma fantasia para o público envolvia um trabalho duro, e por um tempo pensei no teatro como este caminho para o meu lado artístico. Mas numa tarde qualquer conheci Lírio Ferreira e achei a minha turma definitivamente, percebi que era possível fazer e viver de cinema. A montagem surgiu porque na época que comecei a trabalhar havia poucas mulheres fazendo isso em Recife e envolvia ferramentas que eu tinha aprendido no jornalismo e no teatro que são a estrutura narrativa e a objetividade quando se quer contar bem uma história. Enquanto o set é todo movimento e energia física, a montagem é um diálogo mais tranquilo e cerebral. Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão? Sim, as discussões sobre o processo passaram a ser em grupo, e sinto que não estou mais sozinha para resolver os diversos tipos de problemas que surgem não só na montagem mas nas questões legais.  

Ricardo Miranda será homenageado na Mostra de Cinema de Ouro Preto

16.MAI.14 | A 9ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto irá homenagear o montador Ricardo Miranda, falecido em março deste ano. A Mostra irá de 28 de maio a 02 de junho, na cidade histórica mineira.   logo-8acineop-2 Foto: Beni Jr/Universo Produção

Os incríveis vídeo-ensaios de Kogonada

 
Kogonada, nascido em Seoul, Coréia, é conhecido por seus vídeo-ensaios sobre cinema para a web. Atualmente, em paralelo à sua carreira de realizador, colabora para a revista Sight & Sound, que tem site, versões impressa e digital.
O site e a sua página do  Vimeo de Kogonada trazem seus melhores trabalhos, com vários deles escolhidos como destaque pelo staff do Vimeo.
Na sua principal linha de pesquisa, ele busca marcas, assinaturas de estilo de alguns cineastas consagrados. Nos três primeiros vídeos desse post, Kogonada, que é um mestre na montagem, se diverte selecionando e justapondo minuciosamente elementos visuais recorrentes na filmografia do cineasta escolhido, no caso, Stanley Kubrick, Quentin Tarantino, e Vince Gilligan (criador e produtor da série Breaking Bad).
 
O primeiro video-ensaio que apresento é sobre a perspectiva de um ponto fuga no cinema de Stanley Kubrik. O recurso é revelador de traços do estilo preciso, quase matemático, de seus trabalhos, e ao mesmo tempo passa a sensação de mergulho para além dos limites do real.
 
Nesse segundo vídeo-ensaio, Kogonada reúne planos que ele identifica como “From Bellow”, dos filmes de Tarantino.  Os chamados contra-plongês, o ponto de vista dos perdedores, dos mais fracos, que combina bem com seu cinema de anti-herois.
 
Coqueluche dos seriados de TV, de Breaking Bad foram separados planos do tipo POV (ponto-de-vista), muitas vezes com pontos de vista do interior de coisas, de ferramentas, e outras coisas. Passa bem a idéia de estar dentro de um buraco, do qual não se consegue sair, como o personagem não consegue fugir do seu destino de criminoso.
 
Numa variação de sua linha principal de ensaios, no próximo e maravilhoso vídeo que apresentamos acima, o objetivo de Kogonada é decifrar o timing e o estilo da edição neo-realista de Vittorio de Sica. Sempre muito minucioso, ele cria uma comparação de projeções lado-a-lado de um dos filmes de De Sica,Terminal Station ou Indiscretion of an American Housewife produzido por David O. Selznick com estrelas de Hollywood. Na esquerda, o corte de De Sica, na direita o corte do produtor Selznick, que foi exibido nos EUA. Naturalmente, a edição de De Sica é mais lenta, repleta de tempos “mortos”, remetendo ao conceito da imagem-tempo do filósofo Gilles Deleuze, com valorização de figurantes, do ambiente em volta da cena, a cidade como personagem, e esticando o tempo dramático da interpretação dos atores. Para ajudar a entender sua experiência com o filme Terminal Station, Kogonada cita Jean-Luc Godard: “O único grande problema do cinema parece ser cada vez mais, a cada filme, quando e por que iniciar um plano e quando e por que cortar ele.” Este último vídeo foi legendado para o espanhol pelos hermanos da associação de editores da Argentina, a EDA